Tristeza e Rebeldia

Vamos ver onde chegamos desta vez. F5 ou atualizar sempre, pois o cache engana.

17.1.07

A chuva

Ya mis ojos son barro en la inundación
que crece, decrece, aparece y se va
Bersuit Vergabarat - Vuelos

Em algum momento a chuva começou. Mas era como se nunca tivesse começado. Era como se sempre existisse, como se nunca tivesse caído uma primeira gota. Um tomar conta de tudo, formando poças que crescendo se uniam formando poças maiores que crescendo se uniam formando poças maiores. Tudo num ritmo frenético, que, de constante, parecia parado. Cada gota era a mesma de antes de antes e de depois.

Telhados, muros, terra, calçadas, asfalto, folhas, troncos, galhos, pêlos, pele, couro, carros, postes, poças, lagos, rios, corredeiras sendo açoitados pelas gotas, cada vez mais grossas. Água que escorria, penetrava e encharcava, tornando tudo pesado, mole, frio e escuro.

Fomos embora bem no começo do que sempre nunca existiu. Corríamos para abrigos que não alcançávamos. Tentávamos entrar em casas que não eram nossas. Parávamos sob abrigos que não protegiam. Seguíamos tentando, mas não havia lugar. Então, quase sem perceber, nos separamos. Deixamos para depois.

Quando já trancados, ouvíamos o barulho da chuva, contínuo, se tornando silêncio. Um silêncio separador, como a chuva entre nós. Então não havia mais tempo, nem noite ou dia. Só um intercalar de claro e escuro, ou escuro e mais escuro.

Então esperamos.

Pela janela tudo era cinza e molhado. Só o chão não era cinza. Era marrom do barro roído pelos pingos, pelas corredeiras.

Esperamos.

Chegamos a nos acostumar. Não como o olho se acostuma com a escuridão. Nos acostumamos como se acostuma com a espera, que cada vez sempre parece mais longa, que nunca vai acabar. Nos acostumamos e esperamos.

Nas noites que vieram, no silêncio do barulho sem fim, sonhávamos ouvir vozes.

Sustos.

Nos dias que vieram, ficávamos imaginando se havia alguém lá fora, naquela chuva. Éramos muitos, todos sozinhos.

Sustos.

Continuamos esperando, mas não sabíamos mais o quê.

Agora, lá fora, os pássaros cantam e o sol brilha entre as folhas e as flores. Da terra seca sobe uma leve poeira que brilha e reflete a luz.

Mas a chuva continua, cada vez mais forte.

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8.1.07

Carninha

Tenho que lembrar de linkar (aportuguesando) a Karen.
Por enquanto: http://morracarninha.blogspot.com/

O pecado da carne é ...

29.11.06

Equilíbrio perdido
com as mãos ao vento.

Fora do tempo
nada mais se acumula.

31.10.06

...

Uma falsa liberdade me permite agora esculhambar um castelinho de areia que construí. Não iria me abrigar mesmo. Me permito então voltar ao que já era e sempre foi, como se eu não pudesse ou precisasse mais assumir o papel de agente construtor/transformador e não sentisse mais culpa nenhuma.

Ilusão, pura ilusão.

26.10.06

Um poeminha esquerdista (meia boca)

Um mundo gigante
demais pra tudo,
pra ter de tudo,
menos dono.

Eu não ponho cercas nem tranco portas,
nem as quero assim.
É muito?

Nada é meu a não ser o que sinto,
e o que sinto agora é ódio.
Mas eu não quero ódio
nem cercas, nem portas.

24.10.06

- palavras -

Fui deitar com umas palavras,
fazia frio,
elas me aqueciam.

Mas foram se empurrando, se aprumando,
formando versos - quase um poema,
que não ficava quieto.

Tive que levantar e escrevê-las.

(a única forma de calar algo latente,
é fazê-lo falar para sempre)

...

As seqüências se rompem, às vezes,
se abrindo aos poucos em caminhos estranhos,
sem luz, sem setas, sem guia.

E na hora de ficar cansado
e de parar,
muito pouco sobra
e se perde o sentido de estar.

Talvez seja mesmo assim:
partidas sem chegada
chegadas sem saudades.

Talvez não.

...

22.10.06

Primavera cinza

Como se fosse natural
murchar.

Como se fosse natural
deitar sem um beijo.

Como se fosse natural
morrer em segredo.

Luci e a generosidade

Fiquei pensando na Luci Colin (a militância do Jorge eu já conheço) e concluí que esse papo de escrever é muito de generosidade. Cara, as coisas lindas que ela escreve, isso deve dar um trabalho fodido. São coisas que poderíamos viver sem (poderíamos viver sem tantas coisas), mas algumas coisas fazem alguma diferença.

Acho agora até que vale um pouco a pena, o trabalho.
Acho agora até que estou animado.

Vamos ver.

21.10.06

nada
é
totalmente
real
antes
de
acabar
(Bob Mould)


A Mari e a Bere........(reaça).................

O Barbosauro e a Luci numa noite de muito brilho e poesia.

não, eu não seria capaz
de sonhar

com coisas que pudesse realizar

20.10.06

O xará Justen no Wonka.. O fim da noite não foi dos melhores... Mas a foto ficou legal...

18.10.06

Um novo sabor
amargo e contínuo
frio?
talvez um aviso.

Um corte de cabelo
uma roupa
uma imagem como estampa.


Onde estamos?

No caminho de casa parecia um filme
mas com os quadros embaralhados.

Nunca se encontra perto.

Perto se perde,
junto se quebra.

Olhar da janela um mundo gigante,

então,

lá longe,

talvez...

Então

Estou bem animado com essa minha nova fase de escrever, publicar, divulgar e tal.

Ontem no Wonka, apesar do péssimo atendimento e das passações tradicionais, foi divertido.

Vou tentar não ficar tão enlouquecido com a militância política e me dedicar um pouco mais à militância poética.

No fim, não têm muita diferença, e o meu Partido não é um coração partido...



Assisti a queda
como se ajudasse a matá-lo
em paz,
em público.

Já sem cor
no choque
nenhuma certeza sobre sua dor.

Ninguém vai saber de mim,
tentar trazer, encaixotar, pôr na sacola.

Ninguém vai ler como pensei,
eu já estava sozinho há um bom tempo.

E no telefone,
minha voz não será mais imediatamente reconhecida.

- Sim,
sou eu mesmo.

17.10.06

E o tempo cai
de madrugada no andar
apertado
um cigarro
olhar no chão
tira o fôlego, tonteia
no reboco do muro ralar a mão.

Uma mente sem endereço.

Cabeça de ruas tortas,
sem atalho.

Longe que vai,
esquece de voltar,
não guarda o caminho.

Não precisava, mas vou dizer:
às vezes se perde.

Acho que vi um homem queimado.
Não. Eu vi um homem queimando.

E gritava.
Mas não deu pra gravar.

O fogo era bem mais bonito que o homem,
mas eu não queria queimar assim.

15.10.06

De toda a cultura acumulada,
em pilhas de livros, de páginas grudadas,
eu só quero aquela que me traga vida,
e também saúde, alegria e comida.

E a vida?

A vida segue mancando,
num cachorro com a pata quebrada.
Virando a esquina,
indo e voltando.
Com medo de não dar em nada.

Ale

Encontrei um cartão,
não abri.
Iria achar idiota o que escrevi.

Um iniciante tem que tentar várias vezes...

Eu sei, não é consolo,
eu sei, a vida urge,
eu sei.

Um dia vamos rir e chorar disso tudo.

13.10.06

Contrariado e em falso,
um passo.
A diferença entre cair e voar.

Um tempo pesado,
até mais que o ar.
A distância entre sentir e enxergar.

Separando mundos,
mudando posições.

Vivendo e morrendo ao tomar parte de tudo.